terça-feira, 20 de agosto de 2019



Chegamos à penúltima Lição do trimestre em que estivemos abordando desde abril o tema geral O tabernáculo: símbolos da obra redentora de Cristo.
Assim, sem perder de vista que Cristo é o antítipo do tabernáculo, desenvolveremos este estudo de hoje também buscando fazer as aplicações tipológicas da nuvem de glória sobre a pessoa de Jesus Cristo. Com a Bíblia, caneta e papel na mão, mergulhe fundo nos próximos parágrafos!

I. A coluna de nuvem: a glória divina sobre Israel

1. Quando a nuvem cobriu a tenda da congregação




A nuvem do Senhor esteve com o povo desde a saída do Egito (Êx 13.21-22), e sempre se colocava à porta da antiga tenda do encontro fora e longe do arraial, a partir da qual o Senhor falava com Moisés (Êx 33.7-11). Mas esta nuvem trouxe uma glória especial para o meio do arraial dos hebreus peregrinos quando o tabernáculo fora erguido entre as tribos de Israel, menos de dois anos depois de haverem saído do Egito.
Como está escrito:
“Então a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do Senhor encheu o tabernáculo; de maneira que Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porquanto a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor enchia o tabernáculo” (Êx 40.34,35).
É curioso notar a semelhança entre este relato referente ao tabernáculo com o registro da inauguração do templo construído por Salomão:
“E acabando Salomão de orar, desceu o fogo do céu, e consumiu o holocausto e os sacrifícios; e a glória do SENHOR encheu a casa. E os sacerdotes não podiam entrar na casa do Senhor, porque a glória do Senhor tinha enchido a casa do Senhor” (2Cr 7.1,2).
Embora não se mencione mais a nuvem neste episódio (ao que tudo indica ela já não mais estava sobre Israel em caráter permanente desde os dias em que o povo se assentara em Canaã), há a menção da glória do Senhor preenchendo todo o ambiente e de tal modo irradiante que nem mesmo as autoridades religiosas podiam adentrar ao recinto sagrado.

2. A glória de sua Presença

Na nuvem que pairou sobre o tabernáculo estava a “kabod Yavé”, ou seja, a glória do Senhor revestindo e preenchendo o santuário portátil que acabara de ser construído! Essa glória do Senhor, que no hebraico bíblico é kabod (e no grego neotestamentário é doxa), mas a que a literatura judaica e cristã tem feito costumeira menção como Shekinah, é o fulgor ou esplendor da Presença e da atuação divina.
Richard Gaffin destaca que esta glória divina“geralmente está ligada ao fenômeno da luz ou fogo, às vezes com brilho irresistível e intensidade insuportável, coberta por uma nuvem” [1]. Não à toa os poetas de Israel costumam dizer: “Pelo resplendor da sua presença brasas de fogo se acenderam” (2Sm 22.13; Sl 18.12)
Ainda segundo Gaffin,
a glória de Deus é sua presença manifesta que, sem nenhuma mediação, destruirá suas criaturas, mas que permite expressões de mediação que envolvem uma comunhão mais íntima com ele. No NT, Jesus Cristo é a expressão final e permanente da glória divina (cf. Jo 1.14; 2Co 3.13,14). (…) Nele a revelação da glória divina encontrou sua máxima expressão. Vista por Isaías (Jo 12.41), ela é marcada principalmente pela “graça e verdade” em comparação com a revelação manifestada por Moisés (1.17; cf. 7.18). Dessa maneira, os milagres de Jesus manifestam “sua glória” (2.11) como “a glória de Deus” (11.4,40). (…) Cristo é o auge da revelação da glória de Deus. a sua glória mediada pelo Espírito é a glória da nova aliança (2Co 3.3 – 4.6). [2]
Desse modo, é interessante notar que ainda que se tratasse de uma teofania (manifestação de Deus), a nuvem servia para atenuar o fulgor da manifestação, a fim de que os homens ao vê-la não viessem a ser aniquilados pelo peso da glória de Deus. Afinal, “homem nenhum verá a minha face, e viverá”, diz o Senhor (Êx 33.20).
Assim entendemos também um dos propósitos da encarnação do Verbo divino; é que ao esvaziar-se de sua pujante glória, ele pode, na carne, aproximar-se de suas criaturas, especialmente do homem pecador e miserável, para restabelecer-lhes a plena comunhão com céu. Se Isaías temeu pela própria vida apenas num vislumbre da glória irradiante do Senhor (Is 6.5), e se o apóstolo João caiu como morto aos seus pés diante da visão do Cristo glorificado e glorioso (Ap 1.10-15), quem poderia subsistir diante dos raios de sua glória infinita? Nós não suportamos nem contemplar o sol do meio dia, que dirá Aquele diante de quem o sol e as estrelas perdem o seu resplendor (Jl 3.14,15)?

3. “Glória” no hebraico e no aramaico

Popularmente tem se ouvido tanto pregadores como cantores fazerem referência à glória de Deus em sua expressão máxima como sendo a Shekinah de Deus.Como já dissemos, isto também é costumeiro na literatura cristã, mesmo em obras acadêmicas. É sabido que a palavra shekinah não existe nos textos originais bíblicos, e também nota-se certo abuso no uso da mesma. Infelizmente qualquer “animação” na igreja que provoque arrepio de pelos já é tida como a manifestação da Shekinah.
Tem-se banalizado a referência à glória divina. Não precisamos ser tão rigorosos quanto os judeus místicos que, entre muitas coisas, evitaram mencionar a kabod Yavé, mas deveríamos sim demonstrar mais temor e tremor ao mencionar a glória divina como manifesta visivelmente em esplendor! Se devemos oferecer a Deus um “culto racional” (Rm 12.1) e fazer tudo com ordem e decência (1Co 14.40), então precisamos saber quem Deus é e o que é a sua glória, para lhe oferecermos uma adoração genuína, “em espírito e em verdade” (Jo 4.23,24). Como os sacerdotes que ministravam no tabernáculo, precisamos descalçar os nossos pés ante a majestade divina!
Para explicar o uso da palavra shekinah na literatura judaica e um adequado uso dela na literatura ou adoração cristã, transcrevemos abaixo as anotações do pastor e respeitado exegeta pentecostal Esdras Bentho (fizemos algumas adaptações necessárias para este estudo):
– Sentido etimológico –
“SHECHINAH”, significa “habitação”. Se ainda me lembro bem das aulas primárias de línguas bíblicas, este vocábulo procede do aramaico shekēn, isto é, “habitar”, e refere-se à Habitação de Deus sobre a pessoa, a congregação de Israel, ou objeto sagrado como a arca ou o tabernáculo. A ideia é que Deus “pousava” ou “pairava” sobre algo, irradiando seu kabōd [glória]. Segundo os rabinos, a SHEKINÁH “pairava” ou “pousava” sobre os judeus que oravam ou citavam o Shēma. O termo não aparece nas páginas das Escrituras Hebraicas, sendo, portanto, um vocábulo tardio, próximo talvez da época do Segundo Templo [época de Ageu e Zacarias].
– Conceitos judaicos –
Na literatura midrashica o termo é usado para substituir o Nome divino. Preocupados com o emprego indevido do Nome Sagrado, os exegetas judeus usavam vez por outra o vocábulo SHEKINÁH para substituí-lo. SHEKINÁH referia-se à Presença ou Radiância de Deus, ou até mesmo ao próprio Senhor manifestado. De acordo com a compreensão dos exegetas e místicos do judaísmo, a SHEKINÁH era uma teofania muito frequente no relacionamento entre Deus e Israel. Neste sentido, a manifestação divina a Moisés, na teofania visível e audível da sarça ardente, era a aparição da SHEKINÁH, ou a presença da deidade pairando sobre a sarça. Afirmavam ainda os exegetas talmúdicos que a SHEKINÁH “abraçou” amorosamente a Moisés no monte Sinai, assim como uma galinha aos seus pintinhos.
No período mais tardio, próximo à época do Segundo Templo, a palavra SHEKINÁH foi usada para substituir a linguagem antropomórfica empregada para Deus. Quando alguns aspectos da filosofia neoplatônica foram inseridos na teologia judaica através dos escritores alegóricos e midrashicos, o uso de SHEKINÁH, para referir-se à deidade, foi aliado à expressão Bat kol, isto é, “a Voz de Deus”. Os dois vocábulos foram usados intercambiavelmente, e a distinção entre ambos não está clara na literatura cabalista e talmúdica. Mesmo após a destruição do Segundo Templo, 70.d.C., os judeus entendiam que a SHEKINÁH ainda os acompanhava.
– Considerações Neotestamentárias –
Nas páginas do Novo Testamento também não encontramos qualquer menção à SHEKINÁH, conforme a concepção talmúdica. É possível que o escritor aos Hebreus (1.1-4) tenha usado o termo grego απαύγασμα [apaugasma] (v. 3), “efulgência”, “brilho”, “radiância”, “esplendor” como referência desta manifestação divina no AT. Todavia, a SHEKINÁH fora substituída pela encarnação do Verbo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).
Eis aqui a verdadeira SHEKINÁH: nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, encarnado, manifestado em carne, com toda δόξα (doksa) do Pai. Ele é, conforme Hb 1.1-4, a hypóstasis (υπόστασις), a “essência”, a “substância”, a própria “natureza” do Pai encarnada, ou ainda a “impressão”, a “estampa”, a “gravação” – o χαρακτηρ (kharakter) do Pai. Também o Filho é descrito como απαύγασμα, o esplendor do Pai. Esta última palavra, sendo neutra no grego, tem o sentido ativo de emitir brilho, a glória ou a SHEKINÁH que radiava Dele.[3]

II. A Shekinah que esteve presente nas peregrinações de Israel

A primeira menção à nuvem que acompanhou o povo de Israel durante toda a peregrinação no deserto se encontra em Êxodo 13.21-22, onde está escrito:
“E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, para que caminhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite”.
Três coisas são merecedoras de destaque nesse texto:
Em primeiro lugar – é dito que o Senhor (Yavé) ia adiante do povo em meio à coluna de nuvem/fogo. Ou seja, aquela não era uma nuvem comum, mas uma verdadeira manifestação divina, um sinal miraculoso permanente que certificava o povo de que Deus estava presente. Visto que a nuvem acompanhou o povo e “nunca se retirou” de diante dele, pode-se dizer que a presença de Deus esteve sempre visível para o povo ao longo da jornada.
Ao mesmo tempo em que é maravilhoso pensar nisso, deve também causar-nos espanto que o povo tenha tantas vezes ofendido a Deus com suas murmurações, idolatrias e toda sorte de pecados praticados bem diante da presença do Senhor manifesta no meio deles! Como puderam não temer aquela espécie de teofania? Como puderam ser tão indiferentes a ela, visto que “todo o povo via a coluna de nuvem” (Êx 33.10; 40.38)? Como bem disse o Senhor a Moisés, “Tenho visto a este povo, e eis que é povo de dura cerviz” (Ex 32.9). Quando a dureza do coração é tão grande, o homem não teme pecar diante da presença do Senhor!
Em segundo lugar – a nuvem tinha formato de coluna (posição vertical) e embora esse texto pareça sugerir que à noite o fenômeno era outro (“coluna de fogo”), na verdade, tratava-se da mesma nuvem do dia, mas que em meio à escuridão da noite revestia-se de refulgente luz, à semelhança do fogo. O texto de Número 9.15 e 16 deixa isso ainda mais claro:
“No dia em que foi levantado o tabernáculo, a nuvem cobriu o tabernáculo, a saber, a tenda do testemunho. E, à tarde [isto é, ao final da tarde], estava sobre o tabernáculo uma aparência de fogo até a manhã seguinte. Assim acontecia sempre: a nuvem o cobria, e, de noite, havia aparência de fogo”.
Em terceiro lugar – o propósito primordial dessa manifestação divina era dar orientação ao povo hebreu fugitivo do Egito, isto é, “para os guiar pelo caminho… para que caminhassem dia e noite”. Embora o povo pudesse contar com orientações humanas e naturais para se guiar rumo à Canaã (conferir o caso do cunhado de Moisés, Hobabe, que serviu-lhe de guia – Nm 10.29-33), Deus estava sempre presente para dar a orientação inequívoca, não só quanto ao caminho a ser percorrido, mas quanto ao tempo devido para percorrê-lo e as devidas pausas para o descanso. Como está escrito:
“Mas sempre que a nuvem se alçava de sobre a tenda, os filhos de Israel partiam; e no lugar onde a nuvem parava, ali os filhos de Israel se acampavam. (…) E, quando a nuvem se detinha muitos dias sobre o tabernáculo, então os filhos de Israel cumpriam a ordem do Senhor, e não partiam. E, quando a nuvem ficava poucos dias sobre o tabernáculo, segundo a ordem do Senhor se alojavam, e segundo a ordem do Senhor partiam” (Nm 9.17,19-20)
As posteriores gerações piedosas dentre os hebreus compreendiam que fora o Senhor quem orientou seu povo enquanto peregrino no deserto. O Salmo 136 é um convite para render graças e louvar a Yavé, que livrou a Israel da escravidão no Egito e que “guiou o seu povo pelo deserto” (Sl 136.10-16).

III. Algumas lições para hoje

1. A nuvem sobre o tabernáculo não era comum

Três características presentes naquela nuvem demonstram ser ela uma manifestação divina extraordinária, e não um elemento comum da atmosfera: primeiro, a nuvem tinha formato de coluna (ou seja, posicionava-se verticalmente e não horizontalmente); segundo, a aparência era de nuvem durante o dia (talvez em cor branca ou cinza), mas à noite revestia-se de uma aparência de fogo (um verdadeiro espetáculo bem diante dos olhos de todo o povo); terceiro, a nuvem não tinha um movimento uniforme, já que ela parava ou prosseguia em intervalos diferenciados, impossível de ser previsto.
No Novo Testamento percebemos que nuvens extraordinárias também estão ligadas ao ministério de Jesus, como estiveram ligadas ao ministério de Moisés (este um tipo daquele). Por exemplo, no episódio da transfiguração, Jesus foi envolvido por uma nuvem e também a partir da qual o Pai falara, como fora nos dias dos hebreus no deserto (Mt 17.5); na ascensão de Jesus, ele também subiu ao céu sendo ocultado de seus discípulos por uma nuvem (At 1.9); quanto ao retorno de Cristo, é dito que ele virá “sobre as nuvens do céu” (Mt 24.30; 26.64; 1Ts 4.17; Ap 1.7).
Duvido muito que estas “nuvens escatológicas”, vou chamar assim, tratem-se de nuvens comuns que vemos na atmosfera. Até porque Jesus poderá voltar num dia nublado, como também num dia de céu aberto, sem nuvens; poderá vir de dia sob nuvens esparsas, ou à noite sob o céu estrelado. O certo é que ele virá, e virá sobre nuvens extraordinárias, nuvens que irradiam luz, nuvens que ornamentam o cortejo celestial que virá retirar a Igreja desta terra e leva-la à presença do nosso Pai celestial!

2. A nuvem permanecia sobre o tabernáculo

A nuvem de glória não só ocupou o tabernáculo em sua inauguração, como estava constantemente sobre aquele templo portátil durante a longa peregrinação de quarenta anos do povo hebreu. O livro do Êxodo, que abrangeu os dois primeiros anos da saída do Egito, se encerra destacando a nuvem sobre o tabernáculo, quer erguendo-se sobre ele para fazer o povo caminhar, quer repousando sobre ele para fazer o povo descansar (Êx 40.36-38). Mas sempre sobre o tabernáculo!
Se podemos fazer uma aplicação tipológica daquela nuvem, diremos que igualmente Cristo permanece para sempre sobre sua Igreja. Ao discípulo fiel que guarda suas palavras, Cristo promete fazer nele morada (Jo 14.23); aos irmãos da fé que se reunirem em seu nome, Cristo promete estar presente no meio deles (Mt 18.20). Que mui grandiosa promessa nos fez o Senhor: “eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”(Mt 28.20).
A nuvem de Deus no deserto tinha quatro funções que bem podemos ver em Cristo:
(1) Certificar da constante presença de Deus no meio do seu povo. Igualmente Cristo está presente entre os seus, recebendo a adoração, fortalecendo os corações e guiando os seus passos.
(2) Demonstrar misericórdia e bondade. A revelação de Deus quando em meio aos trovões, relâmpagos, fogo e fumaça fazia o povo estremecer (conf. Êx 19.16-20; 20.18,19), pois para ele “o aspecto da glória do Senhor era como um fogo consumidor” (Êx 24.17). Mas a manifestação de Deus na coluna de nuvem de dia e fogo de noite trouxe quietude ao coração do povo, visto que tal manifestação era um gesto da bondade e misericórdia de Deus para auxiliar seu povo.
Igualmente Cristo não veio a nós trazendo raios e trovões de destruição, mas misericórdia e bondade: “o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lc 9.56; Jo 12.47).É certo que haverá um juízo e um castigo eterno, mas somente após se esgotarem os apelos da graça para este mundo e a porta da salvação finalmente se fechar para os transgressores. Até lá, a nuvem da misericórdia e da bondade nos seguirão todos os dias (Sl 23.6; 2Pe 3.7-9).
(3) Dar orientação ao povo. Já comentamos e noutras palavras agora dizemos que a nuvem de Deus era a bússola do povo hebreu. Não se perderiam no deserto enquanto estivessem olhando para a nuvem! Igualmente, Jesus é a direção para os homens perdidos encontrarem a Canaã verdadeira, a Jerusalém celestial! Disse Jesus: “Eu sou a luz” (Jo 8.12), “Eu sou o caminho” (Jo 14.6) e “Eu sou a porta” (Jo 10.7,9). Martin Luther King dizia que os homens conseguiram fabricar mísseis teleguiados enquanto eles mesmos, os homens, andam desorientados. Falta a luz do discernimento, o caminho da sabedoria, e a porta da salvação para eles!
Quem tem luz, encontra o caminho certo; quem anda pelo caminho certo, entrará pela porta e repousará tranquilo! Sem luz, os homens vagueiam nas trevas e tropeçam; sem saber o caminho, os homens se perdem; sem passar pela porta, os homens ficam do lado de fora e se privam de receberem as preciosas dádivas de Deus!
(4) Proteger o povo peregrino. Naquele dramático episódio da travessia do mar vermelho, quando os exércitos do faraó ameaçavam capturar os hebreus fugitivos, nos é dito pelo texto bíblico: “E o anjo de Deus, que ia diante do exército de Israel, se retirou, e ia atrás deles; também a coluna de nuvem se retirou de diante deles, e se pôs atrás deles. E ia entre o campo dos egípcios e o campo de Israel; e a nuvem era trevas para aqueles, e para estes clareava a noite; de maneira que em toda a noite não se aproximou um do outro” (Êx 14.19,20). A nuvem divina que orientava os hebreus, desorientava os egípcios! Mais um sinal do caráter extraordinário e divino da nuvem.
Cristo também é o grande Protetor da Sua Igreja. Quer através de suas intercessões feitas ao Pai no céu, quer através de seu Espírito que nos foi outorgado, quer através de suas próprias intervenções miraculosas, o bom Pastor está sempre guardando seus cordeirinhos contra os ataques dos maus. Ele já deu sua própria vida para proteger-nos (Jo 10.11,13), e dará todas as coisas que forem necessárias para manter-nos de pé até o dia de sua vinda!
Na longa trajetória da vida, prosseguimos debaixo dessa bendita promessa de nosso Senhor: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”(Mt 16.18). Aquele que carinhosamente disse a Israel, “não temas povozinho de Jacó” (Is 41.14), também agora diz à Igreja: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino” (Lc 12.32).

Conclusão

Em face da presença, da misericórdia, da direção e da proteção que Jesus Cristo nos tem concedido, só podemos finalizar este estudo de uma forma: cantando ao Senhor alegremente porque ele nunca nos deixou só.
“Como é maravilhoso,
Pertencer ao meu Jesus!
Ter a graça, o repouso
E ficar ao pé da cruz” 



 A VARA DE ARÃO – O PODER DE DEUS

1. A vara de Arão é uma referência à vara seca de amendoeira que floresceu milagrosamente pela ação e poder de Deus na Tenda da Congregação, quando houve um conflito de liderança no meio do povo de Israel, 1. Nm 17.1-10, "1 Disse o SENHOR a Moisés: 2 Fala aos filhos de Israel e recebe deles bordões, uma pela casa de cada pai de todos os seus príncipes, segundo as casas de seus pais, isto é, doze bordões; escreve o nome de cada um sobre o seu bordão. 3 Porém o nome de Arão escreverás sobre o bordão de Levi; porque cada cabeça da casa de seus pais terá um bordão. 4 E as porás na tenda da congregação, perante o Testemunho, onde eu vos encontrarei. 5 O bordão do homem que eu escolher, esse florescerá; assim, farei cessar de sobre mim as murmurações que os filhos de Israel proferem contra vós. 6 Falou, pois, Moisés aos filhos de Israel, e todos os seus príncipes lhe deram bordões; cada um lhe deu um, segundo as casas de seus pais: doze bordões; e, entre eles, o bordão de Arão. 7 Moisés pôs estes bordões perante o SENHOR, na tenda do Testemunho. 8 No dia seguinte, Moisés entrou na tenda do Testemunho, e eis que o bordão de Arão, pela casa de Levi, brotara, e, tendo inchado os gomos, produzira flores, e dava amêndoas. 9 Então, Moisés trouxe todos os bordões de diante do SENHOR a todos os filhos de Israel; e eles o viram, e tomou cada um o seu bordão. 10 Disse o SENHOR a Moisés: Torna a pôr o bordão de Arão perante o Testemunho, para que se guarde por sinal para filhos rebeldes; assim farás acabar as suas murmurações contra mim, para que não morram". Observe aqui o comentário Andrade:

"Essa vara era um pedaço de pau, galho da amendoeira, usado, provavelmente, para conduzir o rebanho. Quando Deus quis dar um sinal ao povo, fez com que a vara de Aarão, aquela madeira seca e velha, produzisse brotos, flores e frutos. Isso é extraordinário!
Qual o significado da vara de Aarão para nós? Poder de Deus, ação do Espírito Santo, de maneira que o impossível acontece e maravilhas se realizam. É o poder da ressurreição. Aleluia! O sinal da vara de Aarão nos mostra a ação de Deus quando já se pensa que é tarde demais.
Se já recebemos o Senhor Jesus e já temos adquirido o conhecimento da Palavra de Deus, busquemos ainda ... o enchimento do Espírito Santo. Dessa forma, nossa vida cristã não se resumirá em fé e palavras, mas em manifestação do poder de Deus" (Anísio Renato de Andrade"(7)

Outro comentário importante nos vem de Champlin:

"Essa vara apresentou botões, floresceu e deu amêndoas, (Ver Num, 17:8). Esse objeto estava associado à arca, e talvez tivesse sido guardado em seu interior, ou posto na frente da mesma, como lembrete sagrado do poder divino sobre o mal. Alguns estudiosos pensam que serve de tipo de Cristo, em seu ‘sacerdócio florescente’. Baal Hatturim. em Nm, 17:5, empresta ama idéia sacerdotal a esse item, Cristo é a ‘raiz que saiu de terra seca’, que é idéia correlata àquela em que uma vara evidentemente sem vida repentinamente voltou a dar fruto (ver Is 53:2). (Ver também Nm 17.1-10 quanto à história da vara que floresceu, e que determinou quais eram os sacerdotes autênticos).(8)

3. Este exemplo da Vara de Arão que floresceu, nos mostra como Deus pode dar vida à morte! Em Deus não somente a vida nasce da morte, mas esta "vida" gerada na "morte", se torna altamente produtiva. Falando figurativamente sobre sua morte, que iria produzir vida em abundância, veja as palavras de Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto", Jo 12.24. Certamente, através de sua morte, Jesus pode gerar muitos filhos de Deus, Hb 2.9-10, "9 vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem. 10 Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles".
4. Hoje, através da evolução científica, podemos ver o homem manipulando a vida a seu bel prazer, através de inseminações artificiais, de bebês de proveta, dos transgênicos, dos clones, etc.. Porém não temos ainda qualquer registro científico que nos mostre uma vara seca brotando, ou um morto de quatro dias, como no exemplo de Lázaro, ressuscitando. A ciência não pode gerar vida a partir da morte. O que é seco, continuará sendo seco; o que é morto, continuará sendo morto. A matéria sem vida certamente se decomporá e desaparecerá da face da terra, ainda que esta decomposição possa durar um milhão de anos! O único que pode produzir vida, é o Deus da Vida, o Todo-Poderoso! Nos é importante aqui destacar o comentário de Barrow:

"Uma vara de cada uma das cabeças das doze tribos foi marcada com os respectivos nomes das tribos e colocadas diante de Deus, perante a Arca do Testemunho (Números 17:4). Quando Moisés retornou no dia seguinte, a vara de Aarão havia florescido, produzira flores e brotara renovos e dera amêndoas maduras. Deus instruiu Moisés a colocar a vara de Aarão novamente diante do testemunho, "para que se guarde por sinal para os filhos rebeldes"; a fim de prevenir contra futuras murmurações e mortes (Números 17:10).
Isto é a história do Velho Testamento. A aplicação dela está em João capítulo 11. Lázaro, o amigo de Jesus está seriamente enfermo. Jesus amava eles: Lázaro, Marta, e Maria, mas não foi vê-lo imediatamente, esperou ainda dois dias. Isto causou muitos murmurações e discussões. Os próprios discípulos eram os primeiros a murmurar e discutir, especialmente quando Jesus (sem ter sido avisado por ninguém) anunciou que Lázaro adormecera (João 11:11, 14). Marta, Maria e os enlutados eram os próximos a murmurar e discutir. Marta não podia esperar para dizer a Jesus o que ela pensava, ao encontrar Jesus pelo caminho. Maria foi menos direta, mas ainda assim fez a mesma observação que Marta: "Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido" (João 11:21, 32)".(9)

4. Outro detalhe relacionado ao milagre produzido pelo Criador na vara de Arão nos aponta para os impossíveis. Quando não há nenhuma possibilidade de qualquer ação do homem é que Deus entra e age para demonstrar o seu grande poder realizador de milagres e prodígios. Podemos ver muitos exemplos na Palavra de Deus quando "impossibilidades" tornaram-se "possibilidades". Porém queremos destacar apenas dois deles:
a) A passagem pelo Mar VermelhoÊx 14. 6-1621-22, "6 E aprontou Faraó o seu carro e tomou consigo o seu povo; 7 e tomou também seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito com capitães sobre todos eles. 8 Porque o SENHOR endureceu o coração de Faraó, rei do Egito, para que perseguisse os filhos de Israel; porém os filhos de Israel saíram afoitamente. 9 Perseguiram-nos os egípcios, todos os cavalos e carros de Faraó, e os seus cavalarianos, e o seu exército e os alcançaram acampados junto ao mar, perto de Pi-Hairote, defronte de Baal-Zefom. 10 E, chegando Faraó, os filhos de Israel levantaram os olhos, e eis que os egípcios vinham atrás deles, e temeram muito; então, os filhos de Israel clamaram ao SENHOR. 11 Disseram a Moisés: Será, por não haver sepulcros no Egito, que nos tiraste de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos trataste assim, fazendo-nos sair do Egito? 12 Não é isso o que te dissemos no Egito: deixa-nos, para que sirvamos os egípcios? Pois melhor nos fora servir aos egípcios do que morrermos no deserto. 13 Moisés, porém, respondeu ao povo: Não temais; aquietai-vos e vede o livramento do SENHOR que, hoje, vos fará; porque os egípcios, que hoje vedes, nunca mais os tornareis a ver. 14 O SENHOR pelejará por vós, e vós vos calareis. 15 Disse o SENHOR a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem. 16 E tu, levanta o teu bordão, estende a mão sobre o mar e divide-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em seco. 21 Então, Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o SENHOR, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez retirar-se o mar, que se tornou terra seca, e as águas foram divididas. 22 Os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em seco; e as águas lhes foram qual muro à sua direita e à sua esquerda".
b) O cego de nascençaJo 9.1-7, "1 Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. 2 E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? 3 Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus. 4 É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. 5 Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. 6 Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego, 7 dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo".
5. Temos um Deus que age quando tudo está seco, sem vida! Ele é capaz de colocar vida em uma vara seca! Ele pode dar um novo sabor à tua vida!

segunda-feira, 12 de agosto de 2019


 
As Crises de Jeremias
O serviço do Senhor é bastante duro; não é um papel indicado para qualquer pessoa. Pelo relato bíblico, parece que as pessoas que são mais usadas por Deus como instrumentos na obra dele passam por grandes aflições. Não é de admirar então que Paulo exortasse Timóteo para que se fortalecesse a fim de passar por tribulações: "Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele, mas suporte comigo os meus sofrimentos pelo evangelho, segundo o poder de Deus ... Suporte comigo os meus sofrimentos, como bom soldado de Cristo ... suporte os sofrimentos ..." (2 Timóteo 1:8; 2:3; 4:5). A palavra de Deus desmente as doutrinas de ''parar de sofrer'' que são promulgadas por determinadas igrejas de nossa época. A realidade das duras provações na vida cristã assusta vários discípulos que ficam abalados ao ponto de deixar de trabalhar para o Senhor. Será que nós também engolimos o mito de que a vida cristã deve ser livre de angústia?
A vida de Jeremias nos dá bastante auxílio para encarar bem os sofrimentos do servo do Senhor. Note as seguintes etapas da carreira dele:
O chamamento
Quando Deus chamou Jeremias para ser profeta (1:5), ele não queria aceitar: "Ah, Soberano Senhor! Eu não sei falar, pois ainda sou muito jovem" (1:6). O Senhor respondeu que ele lhe daria as palavras e que ele determinaria a programação (1:7). Também ele se comprometeu a estar com Jeremias: "Não tenha medo deles, pois eu estou com você para protegê-lo" (1:8). O Senhor também concedeu a Jeremias os recursos dos quais ele precisaria para resistir aos ataques dos inimigos: "E hoje eu faço de você uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e um muro de bronze, contra toda a terra: contra os reis de Judá, seus oficiais, seus sacerdotes e o povo da terra. Eles lutarão contra você, mas não o vencerão, pois eu estou com você e o protegerei" (1:18-19). Deus já deixou Jeremias prevenido dos esforços dos oponentes, mas lhe deu plena certeza da presença dele para capacitá-lo a encarar todas as dificuldades.
A mensagem
Jeremias pregou ousadamente a mensagem que o Senhor lhe deu: "O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água" (2:13). Ele expôs a infidelidade e a insensatez do povo de Judá por ter abandonado a única fonte do bem e por ter corrido atrás dos ídolos vazios.
A primeira crise
A pregação corajosa da palavra do Senhor por Jeremias irritou muita gente que não queria que seus pecados fossem expostos e condenados. A pregação da palavra de Deus raramente conduz à popularidade. O tom de autoridade é desgostoso para o homem rebelde. As pessoas que ficam ressentidas com a mensagem perturbadora geralmente recorrem a medidas ou para calar o mensageiro ou para acabar com ele. Não era diferente com Jeremias. O Senhor revelou para Jeremias que os homens estavam tramando para matá-lo. Estes homens incluíram o pessoal da própria cidade dele, Anatote (veja 11:18-23).
Jeremias não entendeu a razão pela qual o Senhor deixou o caminho dos ímpios prosperar. Ele queria saber até quando a terra iria sofrer por causa da perversidade deles que Deus estava aparentemente tolerando. Era especialmente difícil para os santos no velho testamento porque não tinham nítida visão da vida eterna. Foi Cristo que "trouxe à luz a vida e a imortalidade por meio do evangelho" (2 Timóteo 1:10). Antes de Cristo, os fiéis esperavam bênção ou castigo nesta vida. Então quando o Senhor deixava os ímpios permanecerem impunes era bastante difícil para irmãos como Jeremias entender.
A resposta do Senhor à angústia de Jeremias era bem chocante. Ao invés de simpatizar e confortar, o Senhor repreendeu e desafiou. Respondeu de três formas: 1."Se você correu com homens e eles o cansaram, como poderá competir com cavalos? Se você tropeça em terreno seguro, o que fará nos matagais junto ao Jordão?" (12:5). Deus estava repreendendo Jeremias por ter ficado tão preocupado com pouca provocação. Se ele nem conseguisse caminhar um quilômetro, vamos dizer, como é que ele iria agüentar a maratona? Nós devemos ter cautela para não sentir muita pena de nós mesmos, porque é bem provável que a situação piore e aí faremos o quê? 2. Deus revelou que a situação já era pior do que ele imaginava: "Até mesmo os seus irmãos e a sua própria família traíram você e o perseguem aos gritos. Não confie neles, mesmo quando lhe dizem coisas boas" (12:6). Não eram apenas os compatriotas da cidade nativa que estavam tramando contra ele, eram os próprios familiares! Ele já passou por trechos angustiantes, mas a realidade ficou mais horrível ainda. Será que para nós também os atuais sofrimentos têm a finalidade de nos fortalecer a fim de suportarmos as verdadeiras angústias vindouras? 3. Deus mostrou que os sofrimentos de Jeremias eram bem mais leves do que os dele mesmo: "Abandonei a minha família, deixei a minha propriedade e entreguei aquela a quem amo nas mãos dos seus inimigos. O povo de minha propriedade tornou-se para mim como um leão na floresta ..." (12:7-8). O que o Senhor estava passando era bem pior do que os sofrimentos de Jeremias, pois ele tinha que abandonar o que ele criou e tanto amou. Dificilmente refletimos no lado das decepções que o Senhor experimenta.
A segunda crise
Jeremias chegou ao ponto de sentir-se muito solitário por causa da rejeição quase universal que passou. "Todos me amaldiçoam", Jeremias reclamou, e afirmou que não tinha feito nada para merecer tal horror (15:10-11). "Jamais me sentei na companhia dos que se divertem, nunca festejei com eles. Sentei-me sozinho, porque a tua mão estava sobre mim e me encheste de indignação" (15:17). Foi bem duro para Jeremias ser excluído de tudo por causa da tarefa severa que ele possuía de anunciar a palavra do castigo. Ninguém queria se associar com ele. Por isso, Jeremias voltou-se contra o Senhor: "Por que é permanente a minha dor, e a minha ferida é grave e incurável? Por que te tornaste para mim como um riacho seco, cujos mananciais falham?" (15:18). Antes, Jeremias havia pregado que Deus era "fonte de água viva" (2:13), mas agora o chamou de riacho seco. Até mesmo grandes homens de Deus caem.
A resposta do Senhor à reclamação de Jeremias me surpreende. De novo, ao invés de simpatizar com Jeremias, o Todo-poderoso o desafiou: "Se você se arrepender, eu o restaurarei para que possa me servir; se você disser palavras de valor, e não indignas, será o meu porta-voz. Deixe este povo voltar-se para você, mas não se volte para eles" (15:19). O profeta havia fracassado e a solução era que ele se arrependesse da sua auto-compaixão rebelde e voltasse ao Senhor. Só assim ele seria o porta-voz do Senhor. Desde que ele já era o porta-voz do Senhor, esta promessa que ao se arrepender ele se tornaria o porta-voz significa que estas queixas contra o Senhor já havia tirado dele esta função. Deus estava lhe dando uma segunda chance, mas ele não deu ouvidos às reclamações. Ele não achou a situação insuportável para Jeremias, não. E depois ele repetiu as palavras do chamamento (15:20-21; veja 1:18-19), assim mostrando que as instruções de que Jeremias necessitava para vencer o desafio estavam já em suas mãos.
Auto-compaixão não faz com que o Senhor dê o braço a torcer. Jeremias estava tão triste por causa do seu isolamento, porém no próximo capítulo (16) Deus ordenou que ele não se casasse e que não fosse nem para velórios nem para festas. Estes mandamentos certamente teriam aumentado este sentimento de solidão que Jeremias passava, mas Deus decretou-os mesmo assim.
Aplicação
Temos que suportar sofrimentos. O cristianismo não é para pessoas moles. Somente pessoas com coragem e determinação resoluta terão a força necessária para prosseguir neste caminho. Cristo cria bons soldados não mimando-os, mas deixando-os passar por grandes dificuldades. A preparação militar, ou até mesmo o treino esportivo, é duro. Nenhum general orienta suas tropas dando-lhes o máximo de conforto e descanso. Nenhum técnico fortalece seus atletas sem dor e suor. Do mesmo jeito podemos nos preparar para passar por momentos duros na vida cristã, porque o Senhor quer que fiquemos fortes e firmes. Talvez nós já imaginamos que a vida é bem difícil, mas estas dificuldades podem ser designadas meramente como entrada às verdadeiras provações do futuro. Se já nos rendermos, como é que superaremos os desafios maiores?
O projeto do Senhor não é que paremos de sofrer nesta terra, mas que as angústias fortaleçam nossa fé ao ponto que fica "muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo" e que resulta "em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado" (1 Pedro 1:7). Não importa a dureza dos momentos aqui, são leves e momentâneos em comparação com a "glória eterna que pesa mais do que todos eles" (2 Coríntios 4:17). Que aprendamos com Jeremias a suportar sofrimentos sem queixa e sem auto-compaixão!